NOVA TENDÊNCIA:

CRESCIMENTO DOS SISTEMAS DE DUPLO PROPÓSITO FARÁ DO GUZERÁ A “BOLA DA VEZ” DA PECUÁRIA

 

Escrito por: Virgílio Melo

 

•  SISTEMAS ESPECIALIZADOS x DUPLO PROPÓSITO

 

O conceito de que a produção pecuária deveria ser especializada em carne ou leite surgiu após a II Guerra Mundial. Em vista da escassez de alimentos havida naquele período, os países desenvolvidos iniciaram programas de subsídios a seus produtores, associados a grandes investimentos em biotecnologia, para garantir o abastecimento farto.

Durante a segunda metade do século XX, todo o esforço foi para se conseguir a mais alta produção por animal , e não o menor custo por unidade produzida . Na virada do século XXI, esses países, em vez da falta, passaram a enfrentar problemas pelo excesso de gêneros alimentícios, com alto custo de estocagem. Os subsídios também começaram a sofrer forte ataque diplomático por parte dos países exportadores de alimentos, por causa das distorções que causam ao comércio global.

A diminuição dos subsídios iniciou-se em torno do ano 2000, na Europa e Estados Unidos. Tem sido lenta, mas inexorável. Os governos não deverão mais comprar toda a produção agropecuária a preços prefixados. Em vez disto, deverá haver, cada vez mais, flutuação de preços dos produtos, ao sabor da oferta e da procura . A partir do momento atual, tanto no leite como na carne, deverá ser mais importante produzir com qualidade, a baixo custo, e não em grande volume ou em modelo especializado. Sem o guarda-chuva dos subsídios, a única especialização defensável é na eficiência econômica, ou seja, no lucro .

Sistemas de produção especializada intensiva tendem a ser cada vez mais criticados, por riscos ambientais e por não respeitarem o bem-estar animal, pontos de exigência para vários países importadores.

Neste ambiente econômico, os produtores de leite, para terem acesso aos incentivos remanescentes, passaram, na Europa, a ser obrigados a criar os bezerros ao pé das vacas em ordenha. O objetivo é que as crias, consumindo parte do leite, diminuam a produção comercializável. Com isto, as raças cujos machos são viáveis para a engorda tomaram o espaço das exclusivamente leiteiras. As raças Holandesa, Pardo Suíça, Simental e outras de uplo propósito tiveram incremento, levando a virtual extinção da Jersey, Guernsey e Ayrshire. Surgiu assim um aparente paradoxo: o Holandês tornou-se a maior raça de corte do mundo , pois é a que fornece a maior quantidade de machos para abate.

Dois modelos de produção tendem a subsistir no mundo: o de duplo propósito e o de corte especializado . Este último tende a ser confinado a algumas partes da Austrália, dos Estados Unidos, da Argentina e do Brasil (Preston, 1977). Explica-se: gado de corte é rentável em largas extensões de terra barata e homogênea, e esta é cada vez mais escassa.

Os novos tempos já registram, também, grande aumento da demanda por carne e leite no Oriente Médio, México, em alguns países da África e da Ásia, que tendem a ser os maiores importadores mundiais nas próximas décadas. Em contrapartida, está havendo declínio progressivo da produção de carne bovina e leite na Europa e nos Estados Unidos.

Do ponto de vista da vocação exportadora, Austrália, Nova Zelândia e Argentina, que ocupam atualmente posição de destaque, não possuem potencial de crescimento expressivo.

 

•  PECUÁRIA NO BRASIL ATUAL E TENDÊNCIAS DE FUTURO

 

O Brasil talvez seja o único país no mundo com capacidade para aumentar substancialmente seus excedentes exportáveis de carne e lácteos, com competitividade. Este conceito tem sido alardeado repetitivamente em publicações especializadas em pecuária . Contudo, que modelos de produção dariam suporte a esse cenário de futuro?

A produção especializada de carne teve grande expansão com a conquista do cerrado, a partir da década de 1960. A disseminação das técnicas de correção e adubação do solo, a difusão da brachiaria decumbens e a ascensão do gado nelore como desbravador de fronteiras atraíram investidores para as terras baratas e planas do centro-oeste do país. Já a década de 1990 trouxe enorme salto tecnológico: popularização dos confinamentos terminais, da estação de reprodução e a introdução do creep-feeding e de técnicas de suplementação na seca, dentre outros avanços. Progressos na área de gestão não podem ser esquecidos.

Com tudo isto, conquistou-se a liderança na exportação mundial de carne. No entanto, acentuou-se a dependência do mercado externo para enxugar o excedente de produção. O pecuarista está em posição extremamente vulnerável, com o boi gordo, em 2005, num dos piores preços da história recente. O benefício financeiro foi transferido para frigoríficos exportadores e supermercados.

Já o leite tem sido pintado como “o primo pobre” da carne no Brasil. Sem apoio governamental nem organização dos produtores, parecia que o setor nunca deslancharia. Na última década, a infindável sucessão de liqüidações de plantel de rebanhos finos de gado europeu chegou a ser tomada como a pá de cal na pretensão de produzir leite no país.

A despeito disso, a produção leiteira tem crescido em torno de 4% ao ano, há 25 anos .De grande importador de leite, passamos a ter um pequeno superávit na balança comercial de lácteos em 2004. Num futuro ambiente de mercado externo menos subsidiado, somos apontados como o país de maior competitividade no mundo, imbatível em pelo menos três produtos: leite em pó, longa vida e leite condensado . É nisto que apostam a Nestlé e a neozelandesa Fonterra, ao fazerem uma joint-venture para explorar em conjunto as oportunidades comerciais de produzir no Brasil, com vistas à exportação. Certamente, tanto do lado dos produtores como destas indústrias, não há um gosto combinado pelo prejuízo...

Analisemos as características comuns aos sistemas que têm alavancado a produção brasileira de leite:

- Uso de heterose zebu/ europeu . Mestiças F1 nos trópicos produzem em torno de 35% a mais de leite por lactação, têm menor taxa de descarte e maior longevidade que outros genótipos, e portanto, melhor desempenho econômico.

- Produção de leite e recria de novilhas predominantemente a pasto, com baixo custo .

- Faixa de produção em torno de 9 a 15kg vaca/dia , compatível com pastejo intensificado e pouco uso de concentrados. O objetivo é alta produção por área, e não por animal.

- Animais excedentes (novilhas para cria e novilhos para abate) são parte importante da renda. É importante observar que a grande longevidade do zebu contribui para aumento da margem de lucro, ao diminuir a necessidade de reposição anual, gerando maior quantidade de animais jovens para venda.

- Baixo capital imobilizado com máquinas e equipamentos .

Portanto, modelos de duplo propósito na base da cadeia estão fazendo a redenção do leite, constituindo-se em alternativa também para a produção de carne . Análises de rentabilidade mostram taxa de retorno líquido entre 29 e 36% ao ano (EPAMIG / Álvares, 2001). A Agropecuária CFM, por exemplo, com produção superior a 10.000 litros/ dia, divulga para o sistema de produção de leite a pasto, rentabilidade por área superior à da cana-de-açúcar (Revista DBO Rural). Certamente é lucro muito superior ao obtido na pecuária especializada, quer em leite, quer em carne. Além disto, apresenta a vantagem da versatilidade de se poder voltar a produção mais para o leite ou mais para a carne, conforme os preços de venda e custos de insumos a cada momento. Ou seja: trata-se de modelo que aumenta o poder de barganha e adaptação do produtor face às flutuações do mercado.

 

•  PERSPECTIVAS PARA O GUZERÁ

 

Progressivamente, as terras disponíveis para a pecuária tornam-se mais caras e escassas. A pecuária de corte extensiva sempre existirá no Brasil, mas ocupará terras cada vez mais isoladas, com pior infraestrutura e de pior qualidade. As melhores terras, ou serão ocupadas pela agricultura, ou cederão espaço a modelo pecuário mais rentável, ou seja, o de duplo propósito. Para quem acha que isto virá num futuro longínquo, no Estado de Minas Gerais, 30% das vacas eram ordenhadas há 20 anos. Hoje, 50% estão sob ordenha (EPAMIG, Informe Agropecuário – Produção de Leite com vacas mestiças).

A única raça de zebuínos que atende plenamente aos dois nichos de mercado – corte especializado ou duplo propósito – é o Guzerá . Puro ou em cruzamentos, é a raça da versatilidade e do lucro.

A criação do Guzerá no Brasil, até recentemente, era focada quase totalmente na carne, na maioria dos rebanhos. Avanços muito expressivos foram obtidos nos últimos anos na seleção para produção leiteira , tornando-a, em vez de sonho de pioneiros abnegados e idealistas, objeto de investimento seguro . O conhecimento científico a respeito mostra, ainda, não haver incompatibilidade entre melhoramento para carne e leite, simultaneamente.

Hoje, cada vez mais criatórios de renome no guzerá de corte têm iniciado seleção para aptidão leiteira em pelo menos parte do rebanho. Parece estar se generalizando a convicção de que não se deve virar as costas à metade dos compradores de touros que ordenham suas vacas...

Outro aspecto que não se deve perder de vista é o potencial de exportação de material genético. 80% do material genético exportado pelo Brasil são de zebu com aptidão para leite. A produção de carne é relativamente bem equacionada em vários países de clima tropical, ao contrário da leiteira. Este mercado, ainda mal explorado, não é desprezível: só em 2004 foram vendidas lá fora 250.000 doses de sêmen, além de animais vivos e embriões.

 

•  PROGRAMAS DE AVALIAÇÃO GENÉTICA DO GUZERÁ

 

Raças de gado que não têm programas de avaliação genética tendem à extinção, pois afastam-se de formadores de opinião (como veterinários, zootecnistas, professores universitários de ciências agrárias) e de pecuaristas de sólida formação técnica.

Tais programas permitem ainda mensurar, ao longo do tempo, se se está conseguindo avançar no melhoramento genético. Permitem também a comparação e divulgação dos melhores reprodutores, levando ao uso intensivo dos mesmos em escala nacional, através da inseminação artificial e transferência de embriões.

Portanto, longe de ser abstração acadêmica, programas de avaliação genética são necessidade absoluta, dos pontos de vista técnico, publicitário e mercadológico. Selecionador que não quer perder dinheiro precisa dominar o conteúdo das avaliações e a metodologia nelas utilizada, para obter resultados positivos. O objetivo do melhoramento genético é o lucro, para o produtor de touros e para seus clientes .

•  Avaliação para carne

É coordenado pela USP – Ribeirão Preto e tem como parceiros: a ACGB (Associação dos Criadores de Guzerá do Brasil), a ABCZ (Associação Brasileira dos Criadores de Zebu) e CBMG (Centro Brasileiro de Melhoramento do Guzerá). Abrange avaliações para velocidade de crescimento, reprodução, habilidade materna e outras características importantes para a produção de carne. Anualmente apresenta novo sumário, com informações atualizadas sobre reprodutores(as) de destaque e rebanhos participantes.

Cada animal listado no sumário aparece com sua DEP (diferença esperada na progênie) para cada uma das características. A DEP é uma estimativa de quanto os(as) filhos(as) de um reprodutor(a) serão superiores ou inferiores à média dos animais avaliados no programa.

A avaliação para carne tem dado excelente retorno para os criatórios participantes. Análises de resultados de leilões de produção têm mostrado correlação positiva e alta entre preço dos touros e suas DEPs.

Maiores informações no site www.ancp.org.br .

•  Avaliação para leite

O programa de avaliação genética é coordenado pela Embrapa – Gado de Leite, em parceria com a ACGB, ABCZ e CBMG. Avalia dados de lactação vindos de três fontes: Arquivo Zootécnico Nacional (AZN) , das filhas dos touros em Teste de Progênie Nacional (TP) e dos produtos do Núcleo Guzerá MOET .

O AZN congrega as lactações de vacas guzerá puras, produzidas por acasalamentos dirigidos pelos selecionadores de guzerá, em controle oficial não-seletivo . Isto quer dizer que o criador deve controlar todas as contemporâneas de rebanho, e não apenas as melhores vacas.

O Teste de Progênie avalia touros através da produção leiteira de suas filhas, produzidas por meio de acasalamentos aleatórios com vacas guzerá ou mestiças, provenientes de rebanhos colaboradores. Esta é a maneira mais precisa de se avaliar geneticamente um reprodutor.

O Núcleo MOET é uma estratégia de seleção genética que prima pela rapidez impressa ao melhoramento. Famílias de irmãos e irmãs próprios são produzidas por múltipla ovulação e transferência de embriões – MOET, em inglês – a partir de touros e vacas elite em mérito genético para leite. A seguir, as fêmeas resultantes são recriadas e aferidas para leite na sede do núcleo. Irmãos completos têm em comum 50% de seus genes, a mesma proporção entre pai e filhas . Desta forma, os touros jovens podem ter sua DEP leite estimada com base na produção de suas irmãs e demais parentes. Há aproximadamente uma dúzia de núcleos MOET no mundo, mas o único já consolidado com gado zebu é o Núcleo Guzerá MOET.

A seleção em núcleo MOET ganha em rapidez para a seleção por progênie, e perde em precisão. O ideal é congregar as duas metodologias: isto é o que tem sido feito no Guzerá brasileiro, exatamente como nos mais avançados programas de melhoramento do mundo desenvolvido.

É importante esclarecer que todas as parentes com produção leiteira conhecida de um animal avaliado influem no resultado (DEP) apresentado para o mesmo, por meio do uso do programa computacional chamado “modelo animal”, também utilizado nos programa de avaliação para carne.

A cada ano, é divulgado sumário contendo as DEPs para produção de leite, gordura e proteína dos touros avaliados. Estes cálculos são dinâmicos: com a entrada de dados sobre novos animais, o valor de DEP de um touro sempre sofrerá alterações de um ano para outro. Exemplificando: quando se diz que um touro tinha DEP para leite +200 em 2005, isto significa que, em média, espera-se que suas filhas venham a produzir 200 kg de leite a mais que a média das vacas constantes no arquivo da Embrapa em 2005.

Maiores detalhes nos sites www.guzeramoet.com.br , www.cnpgl.embrapa.br e www.guzera.org.br .

Apesar do pequeno tempo decorrido desde o início do programa de avaliação genética para leite – 11 anos – o progresso obtido tem sido enorme. Hoje, a raça dispõe de 175 touros avaliados para leite, 138 dos quais positivos . A quebra de recordes de produção leiteira tem sido corriqueira. A recordista atual para lactação completa é Nuvem JF, com a marca de 8636 kg em 365 dias . A maior marca em torneios públicos é de Nagóia da Taboquinha, com 37,1 kg de média e produção máxima diária de 37,43 kg . Em fazenda , a maior produção oficial é de Indígena de Alagoinha, com 42 kg/ dia.

O touro que atualmente lidera o ranking é Humaitá da Taboquinha, com DEP para leite de +342,75 kg.

Confirmando as expectativas, em grande parte do Brasil pecuário, tourinhos filhos das melhores vacas leiteiras são sempre os mais procurados. Também os compradores externos compram e pagam com base nas DEPs para leite. Isto só tem confirmado na prática o retorno financeiro do investimento em melhoramento genético.

 

•  CONCLUSÃO

 

O mundo pecuário está mudando rumo a modelos de duplo propósito; ou seja, na direção da vocação do guzerá .

Declínio de subsídios e produção nos países de clima temperado, aumento do consumo de carne e leite concentrado na faixa intertropical, flutuação cada vez maior de preços de carne e lácteos, e até mesmo aquecimento global – para o guzerá selecionado para carne e leite, tudo isto é oportunidade de crescimento, e não problema.

Quanto à versatilidade e à rusticidade, não foi preciso selecioná-las: a natureza já as deu.

Guzerá: a raça especialista em lucro, neste futuro que já começou.

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